Impostos e custos num leilão de imóvel: IMT, Imposto de Selo e o resto

Por Equipa Licito · Verificado em 2026-08-18

O valor da adjudicação não é o que se paga. Sobre ele incidem IMT, Imposto de Selo, emolumentos e registos, e depois vêm as obras. Este guia decompõe cada encargo, mostra os escalões de IMT em vigor, e explica como chegar ao custo total real — o único número que se deve comparar com o valor de mercado.

Resumo rápido

  • O custo total real de um lance é tipicamente 7% a 12% acima do valor da adjudicação, antes de qualquer obra.
  • O IMT é progressivo e depende de três coisas: o valor, ser habitação própria e permanente ou secundária, e a região (Continente, Madeira, Açores).
  • O Imposto de Selo é 0,8% do valor, sem escalões e sem isenções de habitação.
  • Emolumentos e registos rondam algumas centenas de euros e não dependem do valor.
  • Nas vendas judiciais não há escritura notarial: a propriedade transmite-se pelo título de transmissão, o que poupa alguns custos face a uma compra normal.
  • As obras são o maior custo variável e o mais subestimado, porque quase nunca se vê o imóvel por dentro antes de licitar.

Que impostos se pagam ao comprar em leilão?

Os mesmos de uma compra normal: IMT e Imposto de Selo, ambos a cargo do comprador e ambos devidos antes da emissão do título de transmissão. Uma venda judicial não tem regime fiscal próprio.

O **IMT** — Imposto Municipal sobre as Transmissões Onerosas de Imóveis — é o encargo maior. É progressivo por escalões e a taxa depende do fim a que o imóvel se destina.

O **Imposto de Selo** é 0,8% sobre o valor, sem escalões, sem isenções por habitação própria e sem mínimo.

⚠️ A base de incidência é o **maior** entre o valor da transmissão e o valor patrimonial tributário (VPT) do imóvel. Num leilão em que se arremata bem abaixo do VPT, os impostos são calculados sobre o VPT — o que apaga parte do desconto e é um erro de cálculo comum.

Como funcionam os escalões de IMT?

Por escalões progressivos, como o IRS: cada fatia do valor é taxada à sua taxa e depois aplica-se uma parcela a abater. Não é uma taxa única sobre o total.

Há duas tabelas para prédios urbanos habitacionais no Continente: **habitação própria e permanente** (mais favorável, com isenção até um limite) e **habitação secundária ou arrendamento**. Madeira e Açores têm tabelas próprias, mais baixas.

Fora da habitação as taxas são fixas: **6,5%** para outros prédios urbanos (comércio, serviços, armazéns) e **5%** para prédios rústicos.

⛔ Os escalões são atualizados quase todos os anos no Orçamento do Estado. Confirme sempre a tabela do ano da transmissão no Portal das Finanças antes de fechar contas — a tabela abaixo é indicativa e a calculadora do Licito usa os valores em vigor.

Destino do imóvelEstruturaTaxa
Habitação própria e permanenteEscalões progressivos0% a 6% + taxa marginal
Habitação secundária / arrendamentoEscalões progressivos1% a 6% + taxa marginal
Outros prédios urbanosTaxa fixa6,5%
Prédios rústicosTaxa fixa5%
Imposto de Selo (todos)Taxa fixa0,8%
Estrutura do IMT para prédios urbanos habitacionais (indicativa). As taxas fixas não têm escalões nem parcela a abater.

O que são os emolumentos e os registos?

São os custos administrativos de titular e registar a compra. Numa venda judicial rondam algumas centenas de euros e, ao contrário dos impostos, quase não variam com o valor do imóvel.

Numa venda executiva **não há escritura notarial**: a propriedade transmite-se pelo título de transmissão emitido no processo. Isso poupa os honorários do notário face a uma compra normal.

Fica o **registo predial** da aquisição, que é obrigatório e tem um emolumento fixo, e podem ainda existir custos de cancelamento de ónus e de certidões.

Numa venda de leiloeira privada há normalmente uma **comissão da leiloeira**, frequentemente entre 5% e 10% sobre o valor da arrematação, e essa comissão soma-se ao preço. Está nas condições de venda — leia-as antes de licitar, porque muda o resultado da conta de forma significativa.

Como se calcula o custo total real?

Soma-se ao lance o IMT, o Imposto de Selo, os emolumentos e registos, a comissão da leiloeira quando existe, e a estimativa de obras. Esse total é o que se deve comparar com o valor de mercado — nunca o valor base.

Um exemplo com números redondos: um apartamento arrematado por **100.000 €** como habitação própria e permanente no Continente paga cerca de 1.000 a 5.000 € de IMT consoante o escalão, 800 € de Selo e ~500 € de emolumentos e registos. Está-se em ~105.000 € antes de tocar no imóvel.

Se a reabilitação interior custar 25.000 €, o custo total real é **~130.000 €**. Comparar isso com o valor base de 100.000 € dá a ilusão de um desconto de 0%; comparar com o valor de mercado da zona é que diz se o negócio existe.

A calculadora de custo de licitação do Licito faz esta soma, e a calculadora de ROI leva-a até ao retorno se a intenção for revender ou arrendar.

Há isenções ou benefícios fiscais?

Há, e podem alterar muito a conta. Os principais são a isenção de IMT na habitação própria e permanente até um limite de valor, e os regimes de reabilitação urbana.

A **isenção de IMT para habitação própria e permanente** aplica-se até um limite de valor atualizado anualmente. Acima desse limite paga-se pela tabela progressiva, e não sobre a totalidade.

A **reabilitação urbana** tem benefícios em áreas delimitadas pelos municípios — isenções ou reduções de IMT e de IMI para imóveis reabilitados. Vale sempre a pena verificar se o imóvel está numa ARU (Área de Reabilitação Urbana), porque em centros históricos é comum e o efeito é grande.

⚠️ Há também **agravamentos**: aquisições por entidades com domicílio em jurisdições de tributação privilegiada pagam taxas agravadas. E a isenção de habitação própria e permanente cai se o imóvel não for afeto a esse fim no prazo legal.

Exemplo completo: três cenários com o mesmo lance

O mesmo lance de 100.000 € produz custos muito diferentes consoante o destino do imóvel e a região. É a razão pela qual não existe uma percentagem única para "os custos de um leilão".

**Cenário A — habitação própria e permanente, Continente.** É o mais favorável: a tabela progressiva de HPP tem isenção até um limite e taxas marginais mais baixas. Some 0,8% de Selo e ~500 € de emolumentos e registos.

**Cenário B — habitação secundária ou para arrendar, Continente.** A tabela é a mesma na estrutura mas sem a isenção inicial, por isso o IMT sobe já no primeiro escalão.

**Cenário C — loja, armazém ou escritório.** Sai da tabela progressiva e entra na taxa fixa de 6,5%, que é aplicada à totalidade do valor. Para valores baixos é bastante mais caro do que a tabela de habitação; para valores altos pode ser mais barato.

⚠️ Em qualquer dos três, se o VPT for superior ao lance, os impostos incidem sobre o VPT. Confirme o VPT na caderneta predial ANTES de licitar — é um número público e muda a conta.

CenárioIMT (ordem de grandeza)SeloTotal fiscal
A — habitação própria e permanente≈ 1.000 €800 €≈ 1.800 €
B — habitação secundária≈ 2.000 €800 €≈ 2.800 €
C — comércio / serviços6.500 €800 €≈ 7.300 €
Ordem de grandeza dos encargos fiscais sobre um lance de 100.000 €, por destino do imóvel (Continente). Valores indicativos — usa a calculadora para o caso concreto.

E os custos que não são impostos?

São os que decidem a maioria dos negócios: obras, o tempo até o imóvel render, e as dívidas que acompanham o imóvel.

As **obras** são o maior custo variável. Não se visita o imóvel por dentro na maioria dos casos, por isso o orçamento é uma estimativa — e é onde a maior parte dos maus negócios se estraga.

As **dívidas de condomínio** acompanham a fração e podem ser exigidas ao novo proprietário.

O **tempo** é um custo real: IMI, condomínio, seguros e capital imobilizado enquanto o imóvel está parado — e, se estiver ocupado, o tempo de desocupação.

E, se houver crédito, os **juros** desde a compra até ao arrendamento ou à revenda.

Fontes

Perguntas frequentes

O IMT calcula-se sobre o valor do lance ou sobre o valor patrimonial?

Sobre o MAIOR dos dois. Se o VPT do imóvel for superior ao valor da adjudicação — o que é comum num leilão com desconto — os impostos são calculados sobre o VPT. É um erro de cálculo frequente e pode custar milhares de euros.

Quando é que se paga o IMT?

Antes da emissão do título de transmissão. Sem a liquidação e o pagamento do IMT e do Imposto de Selo o título não é emitido, e sem título não há registo nem propriedade.

Há escritura numa venda judicial?

Não. A propriedade transmite-se pelo título de transmissão emitido no processo, que é o documento levado ao registo predial. Isso poupa os honorários notariais de uma compra normal, mas não os impostos nem o registo.

A leiloeira cobra comissão?

Nas vendas de leiloeiras privadas normalmente sim, muitas vezes entre 5% e 10% sobre a arrematação, e soma-se ao preço. Está nas condições de venda. Nas vendas executivas conduzidas por agente de execução não há comissão do comprador desse tipo.

Posso deduzir as obras em IRS?

Se revender, os encargos com valorização do imóvel nos últimos anos podem ser considerados no apuramento da mais-valia, desde que devidamente documentados. Guarde faturas com o seu NIF desde o primeiro dia — sem fatura, a despesa não conta.

Um imóvel em ARU tem mesmo benefícios?

Pode ter — isenções ou reduções de IMT e IMI para imóveis reabilitados dentro da área delimitada, e a taxa de IVA reduzida em algumas empreitadas. Depende do regulamento do município e do tipo de intervenção; confirme na câmara antes de contar com o benefício.

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